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Comemorações efusivas de um lado. Tristeza profunda do outro. Risos, lágrimas. Aquele grito de gol entalado na garganta. A boa e velha ‘zoação’ com os rivais. O famoso ‘É campeão!’. Estádios lotados, festas bonitas. A cerveja com os amigos no fim da tarde do domingo. A sensação de vitória. A volta difícil para casa após mais uma derrota. Todos estes sentimentos podem ter sido em vão no Campeonato Paraibano 2018. Isto porque, a edição deste ano do certame estadual tem tudo para ter sido um ‘jogo de cartas marcadas’. A competição está sendo investigada pela Operação Cartola, desencadeada pela Delegacia de Defraudações  e Falsificações da Polícia Civil e pelo Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público da Paraíba, que apura irregularidades no futebol paraibano, como manipulação de resultados. De acordo com o delegado Lucas Sá, responsável pelas investigações, há comprovações que os clubes que melhor tiveram um desempenho no torneio, foram favorecidos diretamente.

“O que a gente pode dizer é que tem fato, episódios com fortes indícios de que os clubes que foram favorecidos tiveram melhor desempenho. Isto desde o início do campeonato até as fases decisivas. De fato, este favorecimento foi decisivo para que os clubes tivessem um bom resultado no campeonato. É um fato”, declarou.

Por conta do sigilo das investigações, o delegado não pôde falar os nomes dos clubes envolvidos. Segundo ele, todos os dirigentes de times da primeira divisão do futebol da Paraíba estão sendo investigados. Vale lembrar, que a edição 2018 do Campeonato Paraibano teve como campeão e vice-campeão, respectivamente, Botafogo-PB e Campinense.

Além desta declaração, o delegado revelou uma série de irregularidades cometidas no futebol paraibano na edição deste ano do Estadual. Ele ressaltou ainda que há indícios que as fraudes aconteciam há pelo menos dez anos, porém, pelo fato das investigações terem começado efetivamente a partir de janeiro de 2018, as provas concretas referem-se ao campeonato mais recente.

São várias as irregularidades cometidas pelas pessoas que estão sendo investigadas, que, além dos dirigentes, compreendem ainda a Federação Paraibana de Futebol (FPF), a Comissão de Arbitragem da FPF, o Tribunal de Justiça Desportiva da Paraíba e árbitros de futebol. Dentre as fraudes, estão a participação de pessoas que usaram o esporte como trampolim para a politica, compras de jogos, árbitros vendendo o mesmo jogo para os dois times adversários, entre outras.

 

Segundo o delegado, a ligação do futebol com a política está no tocante a uma suposta vantagem nas urnas, relacionada ao desempenho do clube do dirigente que está tentando uma vaga na poder público.

“O que tem de vínculo politico até agora, é que alguns dos dirigentes já se candidataram a cargos políticos e alguns deles já foram eleitos. Quando o clube tem um resultado bom, a torcida fica eufórica e o dirigente ganha um prestígio enorme por ter sido campeão naquele clube. É quase como dissesse: fui campeão com o clube e vou ser um bom politico. Infelizmente é como se estivesse feito este vínculo e eles acabam ganhando este favorecimento. Alguns deles foram eleitos e basicamente usaram do bom desempenho que tiveram no futebol para ganhar votos e conseguirem se eleger. Depois que eles ocupam estes cargos políticos, se eles fizeram alguma coisa para beneficiar o clube deles, isto até agora não temos”, disse.

Árbitros custavam até R$ 50 mil

Figuras importantes no esquema criminoso, os árbitros eram quem podiam decidir o jogo em favor de um time A ou B. E este favorecimento vinha em troca de algo: ou uma quantia em dinheiro ou favores futuros.

“O árbitro, pelo que foi informado, recebem de 250 até mil reais oficialmente, por partida. De forma legal. Seja da FPF ou CBF. Existem maneiras que o árbitro poderia receber para ajudar um clube. Ou ele recebia valores, dinheiro para ajudar o clube, ou ele receberia favores, que era o fato de ser escalado para mais partidas, com mais frequência e isto faria com que ele ganhasse número de partidas, visibilidade e ganhava pontuação do ranking da CBF ou Fifa. Em termos de valores, se fosse um jogo regular que não tivesse nenhum caráter decisivo, receberia em média 10 mil reais. Se fosse um decisivo, de 30 a 50 mil reais só para aquela partida. Isto foi o que os próprios árbitros denunciaram aqui, que eram os valores que teriam sido oferecidos a eles”, apontou.

Mas se há suspeitas de compras de jogos por mais de um time, como se dava o favorecimento de um árbitro para um time X ou Y? Segundo o delegado, houve casos que os dois times que entraram em campo teriam comprado uma suposta ajuda externa.

“Existem os clubes que conseguiam comprar este favorecimento direto da FPF e da comissão de arbitragem. Os clubes chamados parceiros. E aqueles que não tinham esta ligação com a FPF, não tinham como conseguir o favorecimento através desta, porque ela já garantiu o favorecimento a determinado clube. Então eles partiam para outra opção que era lidar diretamente com os árbitros. Existem episódios concretos de que um árbitro vendeu favorecimento para os dois clubes no mesmo jogo, recebeu dos dois. E como na partida existem lances para os dois lados, ele tinha como se defender dos clubes dizendo que ajudou um clube em um determinado lance e outro em outro. A gente conseguiu comprovar isto. Existem determinadas partidas, inclusive importantes, decisivas, que ele vendeu ajuda para os dois times”, revelou.

Possíveis punições

A investigação ainda está em curso, portanto, ainda não se pode dizer quais consequências jurídicas ela trará. Porém, de acordo com o delegado, o objetivo da operação é passar uma limpa no futebol paraibano. Para isto, os responsáveis pelo esporte na Paraíba, sejam dirigentes de clubes, da FPF ou os árbitros, podem vir a responder tanto criminalmente, inclusive até com prisões, quanto administrativamente, sofrendo sanções dos órgãos que regulam o futebol no Brasil.

“O nosso objetivo é que desta vez a gente tenha a maior eficácia possível. Que estas pessoas sejam, não só processadas, mas condenadas na esfera criminal, sofram as repercussões também administrativas. E aí me perguntaram quais são. É possível que elas sofram consequências no Superior Tribunal de Justiça Desportiva e junto à Confederação Brasileira de Futebol. A CBF pode, por exemplo, afastar dirigentes. Quanto mais elementos tivermos mais chances vai ter disto acontecer”, disse.

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Polícia também fez busca e apreensões em domicílios dos envolvidos (Foto: Divulgação

Ainda de acordo com Lucas, determinados fatores podem ser comprovados até por quatro meios diferentes: as denúncias acolhidas no início das investigações, algumas diligências sigilosas, os documentos apreendidos no dia 9 de abril durante a primeira fase da operação e os conteúdos presentes nos aparelhos telefônicos apreendidos.

Ele disse ainda que novos fatos podem vir a ocorrer se alguns dos suspeitos decidam fazer uma colaboração premiada. Segundo ele, até o momento, ninguém colaborou para as investigações de forma oficial.

“As provas foram coletadas. É claro que é possível que a gente avance se algum dos suspeitos quiser colaborar , mas até o presente momento nenhum quis fazer colaboração premiada, porque eles não sabem o que a gente tem”.

Sobre possíveis prisões, Lucas afirmou que elas podem vir a ocorrer, desde que os possíveis alvos se enquadrem nas condições exigidas por lei para que aconteça uma prisão cautelar.

“A legislação como requisito ela estabelece que seja um crime com pena máxima superior a quatro anos, um crime doloso, e que tenha alguns requisitos, como aplicação da lei penal, a ordem pública e algum risco a integridade física de testemunhas e vítimas. Qualquer uma destas pessoas que tenha a comprovação que ele atuou no esquema, e seja uma pessoa que além de ter comprovada a participação a gente tenha episódios de, por exemplo, ela está destruindo provas, intimidando alguém, ou se desfazendo dos bens para fugir, qualquer pessoas que entre nestes requisitos ela pode ter o pedido de prisão decretada”, explicou.

Lucas disse ainda que os investigados poderão responder por crimes que ferem o estatuto do torcedor, falsidade ideológica e organização criminosa. Ainda há a possibilidade de novos crimes, como lavagem de dinheiro, mas isto só será possível verificar após as análises das contas bancárias dos envolvidos.

Delegados Lucas Sá e Marcos Paulo são os responsáveis pela Operação Cartola (Foto: Divulgação)
Por fim, Lucas fez uma reflexão do que esta operação pode acarretar para o futuro do futebol paraibano. Ele disse ainda que os torcedores que se sentiram lesados, podem ingressar com pedidos de reparação de danos, seja individual ou coletiva, contra os clubes, seja na esfera do direito do consumidor ou na do direito cível.

“Nós vivemos em um país que está assolado por corrupção por todos os lados. A partir do momento que você tolera pequenas corrupções, como furar uma fila, você vai estar contribuindo para que esta corrupção seja endêmica em toda a sociedade e isto vale para todos os aspectos. É meio que cultural isto, as pessoas quando comentam um resultado de um campeonato chegam a dizer que não importa se o time ganhou roubando, o que importa é ser campeão. Se você concorda com isto, você vai fomentar esta corrupção também. A gente não pode tolerar mais, se não é para ter corrupção, não é para ter de nenhuma forma, tanto no esporte, como na politica… O futebol, no momento que a gente vive, é um fator importantíssimo como uma válvula de escape , uma diversão que você tenha. Tem certas situações que não podem mais acontecer e com isto eu espero sim que muita coisa mude para melhor, porque se nem a nossa válvula de escape for uma conduta licita então  é muito grave e tem muita coisa para mudar no nosso país”, finalizou. Fonte Portal Correio.