Documentos sigilosos, e-mails e depoimentos de corretores indicam mudanças na correção da redação do Enem 2025. Candidatos relataram quedas inesperadas nas notas, enquanto o Inep afirma que não houve alteração nos critérios de avaliação.
Após a divulgação das notas, em 16 de janeiro, estudantes passaram a relatar desempenho inferior ao de anos anteriores. O estudante de medicina e mentor de vestibulandos Vinícius de Oliveira, por exemplo, registrou notas acima de 900 entre 2021 e 2024, mas obteve 760 pontos em 2025.
Outro candidato, identificado como Guilherme*, que nunca havia tirado menos de 900 pontos, alcançou 740 na edição de 2025, levantando suspeitas sobre possível mudança na correção.
Segundo a reportagem, documentos e relatos de avaliadores apontam três diferenças na correção da redação, que poderiam ter impactado os resultados.
A primeira envolve a competência 4, que avalia elementos de coesão textual. Antes, havia contagem objetiva de conectivos. Em 2025, a avaliação passou a considerar critérios mais subjetivos, como uso “pontual” ou “expressivo”, segundo corretores.
Outra diferença ocorreu na competência 5, referente à proposta de intervenção. Embora a ausência de um dos cinco elementos já implicasse perda de pontos, em 2025 a falta do item “ação” passou a gerar punição maior, segundo orientações recebidas por avaliadores.
A terceira mudança teria ampliado o peso do repertório sociocultural, fazendo com que repertórios considerados inadequados impactassem simultaneamente duas competências, e não apenas uma, conforme relatos de corretores.
Apesar disso, o Inep reforçou que não houve mudança nos critérios, afirmando que as correções seguem modelo com dois avaliadores e possibilidade de terceira análise em caso de divergência, garantindo equilíbrio e tratamento igual aos participantes.
A polêmica ocorre no momento em que o Sisu passou a aceitar notas das três últimas edições do Enem, permitindo que candidatos concorram com resultados obtidos em anos diferentes. Para estudantes, isso poderia gerar desigualdade caso os critérios de correção tenham variado.
Além disso, corretores relataram sobrecarga de trabalho e baixa remuneração, recebendo cerca de R$ 3 por redação corrigida, com jornadas que podem chegar a 200 textos analisados em um único dia. O Inep não respondeu sobre essas condições.
*Os nomes de alguns entrevistados foram preservados por sigilo, já que corretores assinam termos de confidencialidade sobre o trabalho realizado.
Com G1